Nada estava sendo fácil. Nem as amigas conseguiam ajudar quando o assunto era Choi San. Desde o término, mal saia de casa, até os conteúdos na internet estavam pausados e a agência dela já começava a entrar em desespero. A mulher cogitou inclusive abandonar tudo e voltar para o Brasil, quem sabe isso apagaria tudo?
As luzes da cafeteria certamente dariam uma foto linda para ela postar nos stories do Instagram, mas ela se sentia apagada, sem brilho, como se a luzinha interna que ela tinha desde pequena tivesse se apagado. Precisava sair dessa, ela pensou enquanto apertava a xícara de café entre as mãos, sentindo o quente do café nas palmas.
Eunbin chegou logo em seguida e procurou por ela na cafeteria lotada. levantou um dos braços e começou a acenar para o agente, rapidamente, esperando que ele a visse, assim ela não precisaria pegar o telefone na bolsa, e ver a foto de San, que ainda era seu papel de parede.
Por sorte, Eunbin a encontrou com rapidez e caminhou a passos largos e rápidos na direção da mesa dela. Ao chegar, depositou um beijo rápido na bochecha da brasileira e puxou uma cadeira para se sentar.
— Tenho uma novidade incrível, e uma notícia não tão boa assim. Péssima na verdade. — Os olhos de Eunbin e se encontraram.
— A agência quer rescindir o contrato? É isso? — Os olhos de se arregalaram, saltando levemente para fora.
O coração também deu um salto dentro do peito.
— , você precisa reagir, sabe disso não sabe? Os seus contratantes têm reclamado da falta de conteúdo, seus seguidores já notaram que tem algo de errado. O San também sumiu, e os fãs estão começando a ligar os pontos.
— Acho que fazer qualquer pronunciamento sobre nosso término vai tornar tudo muito real para mim mesma, e por isso não falei nada publicamente ainda.
— E nem precisa… — Eunbin pigarreou.
O homem abriu a pasta e colocou os papéis na frente de Eunbin, que colocou a xícara branca de lado para pegar os mesmos. As mãos dela tremiam um pouco.
Passou os olhos pelo contrato, lendo cada linha com atenção, sentindo o coração bater mais forte a cada palavra.
O título do documento parecia brilhar em negrito, como se zombasse dela:
“Contrato de Campanha – Fragrância Dual ‘Éternel’ – Vigência: 12 meses.”
Logo no início, um item já fez o estômago de se revirar.
Cláusula 2 – Representação da Marca: A contratada, influencer Alves, e o contratado, artista Choi San, atuarão como dupla oficial de divulgação da fragrância Éternel, nas versões masculina e feminina, por um período de 12 (doze) meses a contar da assinatura deste documento.
Os olhos dela correram pela página. O texto era nítido, direto, impossível de ignorar.
Cláusula 3 – Imagem e Presença Obrigatória: Ambas as partes deverão comparecer juntas a todas as ações presenciais de marketing, incluindo: sessão de fotos, filmagens, eventos públicos, entrevistas e lançamento oficial. A química entre o casal é essencial para a narrativa da campanha, sendo parte intrínseca da estratégia de branding aprovada pelo presidente da marca.
A respiração de falhou.
Cláusula 4 – Narrativa Oficial: Durante o período da campanha, a marca solicita manutenção da imagem pública do casal, uma vez que estratégias de marketing já foram previamente alinhadas ao relacionamento dos contratados. O não cumprimento poderá acarretar rescisão contratual por quebra de imagem e multa estipulada no item 9.1.
A última frase parecia pesar toneladas.
E então, a bomba final:
Cláusula 5 – Motivo da Contratação: O presidente da marca ‘Éternel Fragrances’ reforça seu apreço pelo casal Choi San & , considerando-os símbolo perfeito da dualidade da fragrância. Acredita-se, inclusive, que preservar a narrativa romântica entre ambos potencializará significativamente os resultados da campanha na Ásia e na América Latina.
sentiu o mundo girar.
Eles queriam ela.
Eles queriam o San.
Juntos.
Por um ano inteiro.
— Tá brincando com a minha cara, Eunbin? Isso aqui não vai ser assinado nem sob meu cadáver. Eu e o San, numa campanha juntos? Por um ano inteiro?
Eunbin umedeceu os lábios, visivelmente nervoso.
— Ai que tá o problema , o San já assinou o contrato dele.
— O que? Que porra é essa? Ele tá maluco de assinar um bagulho desses sem falar comigo?
Eunbin suspirou pesadamente, provavelmente já prevendo a minha reação.
— O San foi estratégico , você viu o valor do contrato por uma campanha tão simples como essa?
— Simples, Eunbin? Simples é o meu pau.
— Fala baixo ! — Ele sussurrou, olhando ao redor. — Estamos em público, deixe para usar sua boca suja quando encontrar o San. Você não tem outra opção a não ser assinar esse contrato. Vai ser fácil fingir, vocês foram namorados por anos, e nem tem tanto tempo assim que estão separados.
— Eunbin! — Minha voz se elevou algumas dezenas. — Fácil? É fácil fingir ser namorada do San quando eu ainda to na fossa? Meu Deus!
esfregou os olhos e depois levou a xícara de café aos lábios.
— O que acontece se eu não assinar essa porra?
Eunbin respirou fundo, como se estivesse prestes a pisar em um campo minado.
— Se você não assinar… — Ele ajeitou os óculos, claramente desconfortável. — A marca rescinde o acordo com você, mas mantém o do San, porque ele já está comprometido. E aí, além de perder o contrato, você perde três campanhas futuras que estão atreladas a esse acordo.
arregalou os olhos.
— Três? TRÊS, Eunbin?
— E tem mais… — Ele engoliu seco. — Sua agência já avisou que não vai conseguir segurar a pressão dos patrocinadores se você recusar. Vai parecer instabilidade emocional. E nesse meio… — ele fez um gesto vago com a mão — você sabe, qualquer rumor vira uma avalanche.
— Então é isso? — deu uma risada amarga, sem humor. — Além de ter que fingir que não quero enfiar o pé no cu do San, eu ainda tenho que fazer pose romântica do lado dele por um ano inteiro senão eu perco tudo?
— Basicamente… sim. — Eunbin deu um sorriso tímido, quase culpado. — E você sabe que San é… profissional. Ele vai levar isso como trabalho. Ele sabe que vocês não precisam se amar pra fazer fotos bonitas.
bateu a xícara na mesa com força suficiente para Eunbin pular na cadeira.
— A gente não faz fotos bonitas, Eunbin, a gente faz fotos que parecem capa da porra de um romance! — Ela esfregou o rosto com as duas mãos. — Meu coração ainda parece purê de batata e você quer que eu faça caras e bocas abraçada no ex que me fez chorar por semanas?
— … — Eunbin colocou a mão sobre a dela, baixinho. — Se isso consola… o San perguntou de você quando assinou.
Ela travou.
— Perguntou o quê?
Eunbin hesitou.
— Só… se você estava bem.
Por um segundo, odiou o fato de isso ainda mexer com ela.
— Foda-se ele. — murmurou, virando o café goela abaixo. — Fala logo. O que acontece exatamente se eu não assinar?
Eunbin soltou o ar devagar, como quem entrega a sentença final.
— Você perde o contrato, perde três campanhas futuras, perde a estabilidade com a agência… e provavelmente perde metade dos seus patrocinadores nos próximos três meses. — Ele deu de ombros, quase pedindo desculpas. — E a mídia vai inventar mil teorias sobre você estar “descontrolada” depois do término.
Silêncio.
Barulhos de xícaras, pessoas conversando ao fundo, música baixa na cafeteria… tudo pareceu longe demais.
Até que afundou na cadeira, os olhos fixos no papel.
— Um. Ano. — Ela sussurrou para si mesma, incrédula. — Fingindo que não estou quebrada.
— Uma aprendiz? — Hongjoong sussurrou para Gaeyeon. — Eu realmente tenho que ficar tomando conta de uma pirralha enquanto tenho tanta coisa para fazer?
Gayeon riu baixinho, sem tirar os olhos do computador.
— Joong! Ela vai vir justamente para te desafogar. — Gayeon sorriu, ainda trabalhando focada no computador. — Tudo bem que no começo com você precisando auxiliar nisso ou naquilo, você fique um pouquinho mais ocupado. Mas vai ela vai te ajudar com as demandas que você quiser.
Hongjoong bufou discretamente, e olhou no relógio.
— Ela não está atrasada?
Gayeon riu e então levou os olhos até o subordinado.
— Nós que estamos, ela já está nos esperando há quinze minutos, eu só queria terminar isso aqui antes.
Hongjoong ergueu uma sobrancelha.
— Uma gen-z, pontual? Tem certeza?
Gayeon riu da desconfiança do amigo.
— Tenho certeza absoluta, Joong. Agora vamos? — Ela bloqueou o computador e se levantou.
Enquanto caminhavam pelos corredores da Pulse Lab, Hongjoong pensou em tudo que ainda teria que produzir no decorrer do dia, e em como a tal aprendiz poderia ajudá-lo logo naquele primeiro dia de trabalho.
— Como é o nome dela mesmo? — Hongjoong sussurrou assim que eles chegaram à recepção lotada de jovens.
— Song .
— Song … — Ele testou o nome nos lábios. Soou bem, ele pensou.
Depois de passarem pela catraca, Gayeon foi até a recepcionista e Hongjoong passou os olhos pelos jovens que lá estavam. Qual das garotas seria a aprendiz?
Gayeon voltou com um crachá nas mãos e então chamou:
— Senhorita Song ?
Uma jovem magra e de cabelos castanhos e compridos se levantou de uma das poltronas, erguendo a mão e caminhou na direção deles. Hongjoong a observou com precisão.
A garota se aproximou com passos firmes, e Hongjoong percebeu isso antes de qualquer outra coisa: ela não andava com pressa, nem com insegurança. Havia uma calma concentrada em seus movimentos, como alguém que já sabia exatamente onde estava pisando.
Ela era magra, alta o suficiente para não parecer frágil, e o cabelo castanho caía longo pelas costas, liso na raiz e levemente ondulado nas pontas, refletindo a luz do saguão conforme se movia. Os fios emolduravam um rosto delicado, mas longe de ser ingênuo.
Os olhos chamaram sua atenção de imediato. Claros, expressivos, atentos demais para alguém que deveria estar nervosa no primeiro dia. Havia algo ali — não arrogância, mas presença. Como se ela observasse o ambiente com a mesma precisão com que estava sendo observada.
O nariz fino, os lábios bem desenhados, a pele uniforme… tudo nela parecia cuidadosamente simples. Sem exageros. Sem esforço.
Quando parou à frente deles, inclinou levemente a cabeça em cumprimento, um gesto educado e discreto.
— Song . — disse, com a voz firme, sem hesitação.
Hongjoong piscou uma vez, desviando o olhar rápido demais para não parecer óbvio. Não é uma pirralha, ele pensou.
Havia algo maduro em sua postura, algo que não combinava com a ideia que ele havia criado minutos antes. Ela não parecia alguém que precisaria ser carregada o tempo todo. Pelo contrário — parecia alguém que observaria, aprenderia… e depois faria sozinha.
Gayeon sorriu satisfeita, como se tivesse previsto exatamente aquela reação silenciosa.
— Joong, essa é a sua nova aprendiz. — disse ela. — , este é Kim Hongjoong.
sustentou o olhar dele por um segundo a mais do que o esperado.
— É um prazer trabalhar com você, senhor.
Hongjoong engoliu em seco.
— …O prazer é meu.
E, pela primeira vez naquele dia, ele pensou que talvez — só talvez — aquela aprendiz fosse mais trabalho do que ele imaginava.
👾👾👾
— Hoje vamos mixar apenas os covers. Você já tem experiência com as mixagens? Ou é leiga? Posso te ensinar.
sorriu e passou uma das mechas do cabelo para trás da orelha.
— Essa sala inteira vai ser só minha? — Hongjoong reparou que os olhos dela brilharam.
Ele não conteve o sorrisinho de canto, achando-a adorável.
— Toda sua… — Ele apontou com o polegar. — A minha é logo ao lado. Se precisar é só sair e bater na porta.
— Quanto às mixagens, pode ficar tranquilo que eu sei fazer, tenho experiência nessa parte, só preciso dos arquivos. Eu até já tenho um e-mail, a Gayeon me passou.
— Ela me passou também, vou te mandar todos os arquivos e direcionamentos, e qualquer dúvida, não hesite em me chamar .
assentiu, ainda sorrindo, e fez uma pequena reverência antes de se sentar na cadeira giratória. Os dedos deslizaram pelo mouse com naturalidade, como quem já conhecia aquele território antes mesmo de pisar ali.
Hongjoong parou na porta por um segundo a mais do que deveria.
Observou enquanto ela abria o e-mail, lia os títulos com atenção e já começava a organizar pastas, criando subcategorias com nomes precisos. Nada de bagunça, nada de improviso exagerado. Tudo metódico. Definitivamente não é leiga, ele pensou.
— Os covers estão separados por tonalidade? — perguntou sem olhar para trás, já conectando os fones.
Hongjoong ergueu as sobrancelhas, surpreso.
— Estão… sim. — respondeu, aproximando-se alguns passos. — Pouca gente repara nisso logo de cara.
— Facilita a mixagem quando a intenção é manter a identidade do intérprete sem apagar a original. — Ela explicou, simples, como se fosse óbvio. — Principalmente quando o público compara versões.
Ele soltou uma risada curta, impressionada.
— Você pensa como produtora, não como aprendiz.
finalmente virou a cadeira na direção dele, apoiando um cotovelo no braço da poltrona.
— Eu prefiro pensar que sou uma aprendiz que observa bem.
Os olhos deles se encontraram por um instante mais longo do que o necessário. Não foi desconfortável — foi curioso. Avaliativo. Como se ambos estivessem recalculando expectativas.
Hongjoong pigarreou, quebrando o momento.
— Vou te mandar os arquivos agora. — disse, já puxando o celular do bolso. — Qualquer coisa, mesmo que ache boba, me chama.
— Pode deixar. — ela respondeu, colocando os fones sobre as orelhas. — E… obrigada por confiar.
Ele abriu a boca para responder, mas desistiu. Apenas assentiu e saiu da sala, fechando a porta atrás de si.
Do outro lado, no silêncio controlado da própria sala, Hongjoong sentou-se diante do computador… mas não conseguiu se concentrar de imediato.
Porque, pela primeira vez em muito tempo, ele teve a estranha sensação de que aquela rotina tinha acabado de mudar. E que Song não seria apenas mais um nome temporário nos corredores da Pulse Lab.
bufou quando a caixa ameaçou cair justamente quando ela estava chegando no topo da escada do andar de seu apartamento. Mas ai ele apareceu, como se estivesse saindo exatamente de um filme: os cabelos negros molhados, como se ele tivesse acabado de sair do banho, a calça de moletom cinza nem muito larga, nem muito apertada, a regata da mesma cor marcando os músculos que ele parecia estar começando a moldar na academia…
E o olhar…
Não era invasivo, nem descaradamente curioso. Era calmo demais para alguém que acabara de surgir daquele jeito, mas intenso o suficiente para fazê-la esquecer, por um segundo, da caixa ameaçando despencar escada abaixo.
Os olhos dele eram escuros, profundos, semicerrados como se estivesse avaliando a cena com uma atenção preguiçosa, quase distraída — mas nada passava despercebido. Havia algo contemplativo ali, um tipo de interesse silencioso, como quem observa antes de agir.
Não havia pressa. Nem surpresa exagerada. Apenas aquele foco direto nela, firme, seguro… e perigosamente tranquilo.
Um olhar que parecia dizer eu vi você, sem precisar de palavras.
Ela umedeceu os lábios repentinamente secos pela presença marcante do homem misterioso. O coração deu alguns saltos e ela se concentrou em segurar a caixa com mais firmeza.
— Precisa de ajuda? Posso carregar essa caixa para você, ela parece pesada.
O desconhecido charmoso ergueu os braços na direção da caixa, fazendo menção de pegá-la dos braços de , e bom, ela não recusou a ajuda. Fazer a mudança sozinha estava sendo exaustivo, ela não havia dormido naquela noite, andava para cima e para baixo descendo exatamente 5 vão de escadas da portaria até seu novo apartamento.
Ela quase sorriu de alívio ao sentir o peso sendo retirado de seus braços. O desconhecido pegou a caixa com tanta facilidade que ela quase protestou. Aquilo era injusto!
— Qual seu apartamento?
— 23B.
Respondeu depois de terminar de subir a escada e recuperar um pouco do fôlego. As mãos dela tremiam levemente, assim como os músculos dos braços e pernas, de tanto subir e descer.
— Em frente ao meu. Que coincidência.
— Ah você é meu vizinho da frente? Uau, quem diria que iríamos nos esbarrar bem no meu primeiro dia como moradora.
Um sorriso discreto brotou no canto dos lábios dele e se apresentou.
— Jeong , muito prazer!
— Muito prazer, senhorita Jeong. Sou Park Seonghwa.
Park Seonghwa, uau! Um nome forte para combinar com a presença dele que já havia se mostrado um tanto quanto avassaladora. Pelo menos na opinião de .
Os dois caminharam lado a lado até pararem na porta já aberta do apartamento 23B. Lá dentro já havia um sofá de dois lugares marrom, caixas espalhadas pelo sofá e pelo chão, um painel ainda sem TV, uma mesa de vidro pequena no canto da sala com mais caixas e quadros sobre, um balcão que dividia a sala da cozinha, e claro o corredor que levava aos quartos e banheiro.
As luzes estavam acesas, eram bem claras e Seonghwa sentiu o impacto das mesmas em suas pupilas, fechando rapidamente os olhos para se acostumar com a claridade do local.
— Ah eu odeio luzes amareladas, elas me dão fadiga… — Se justificou , percebendo que o clarão havia o incomodado.
— Ah, tudo bem. Eu entendo, relaxa. Eu só não estava esperando esse clarão todo, mas já me adaptei. Onde eu deixo essa caixa?
— Pode deixar ali em cima do balcão, é onde vou deixar as caixas restantes agora. Faltam poucas, graças a Deus.
suspirou pesadamente e então soltou o cabelo, que estava preso num coque que agora ameaçava se desfazer. Foi então que encontrou o olhar do vizinho sobre si, parecendo um tanto quanto fora de órbita.
Seonghwa observou os cabelos pretos e longos da mulher caírem sobre seus ombros e não conseguiu deixar de pensar no quanto eles pareciam cheirosos e a deixavam ainda mais atraente. Piscou algumas vezes, depois engoliu seco e desviou os olhos. Não, ele não podia!
Caminhou com a caixa para dentro do apartamento e assim o fez: deixou a caixa sobre o balcão super limpo da cozinha, depois colocou as mãos na cintura, encarando a nova vizinha novamente.
— As outras caixas estão lá embaixo também? Precisa de ajuda com mais alguma?
— Você não está ocupado? — sondou, mordendo o lábio.
— Eu estava indo para a academia, mas acho que posso fazer meu cárdio ajudando você com as caixas… — completou.
Seonghwa inclinou levemente a cabeça para o lado, e um sorriso lento surgiu em seus lábios — nada escancarado, apenas aquele tipo de sorriso que nasce no canto da boca e entrega mais do que deveria. Os olhos, antes neutros, ganharam um brilho diferente, mais atento, quase provocador. Ele passou a língua rapidamente pelo lábio inferior, num gesto inconsciente, como quem mede as próprias palavras antes de dizê-las… ou a própria decisão.
— Não vai me matar trocar a esteira por isso. — disse, soltando uma risada baixa, rouca, que vibrou no peito.
E então deu um passo para mais perto da porta, abrindo caminho como quem já tinha decidido ficar.
👾👾👾
Os dois caíram exaustos no sofá. O suor pingava pelo rosto e peito de Seonghwa e se pegou involuntariamente olhando para o caminho que as gotas faziam pelo peito marcado dele na regata. Umedeceu os lábios e sentiu a garganta fechar.
“Maldito vizinho do corpo bonito!” Praguejou novamente enquanto terminava de observar o caminho deixado pelo suor.
— Distraída ai, vizinha? — A voz rouca e baixa dele a trouxe de volta ao planeta Terra.
Com as bochechas ficando vermelhas, ela desviou os olhos para o painel agora com a TV devidamente instalada por Seonghwa.
— Você e eu precisamos de um banho.
Levou uma das mãos até a boca rapidamente se dando conta de aquilo poderia certamente soar como flerte ou como um disparate, ela mal o conhecia!
A risada dele ecoou pelo apartamento e invadiu os ouvidos dela, que não teve coragem de encará-lo de volta.
— Eu concordo…
Só então desviou os olhos da TV para encarar os dele. Alguma coisa brilhava por lá, acendendo uma faísca dentro dela.
Abriu os lábios na tentativa de dizer algo, mas nada saiu. Nenhum mísero som, nada. E ela sabia como aquilo só piorava as coisas.
— Você precisa de ajuda com mais alguma coisa, senhorita Jeong?
Os dois continuaram se encarando em silêncio. engoliu seco, finalmente recuperando a voz e o controle.
— Não senhor Park. Agora eu me ajeito por aqui, muito obrigada pela ajuda e por ter sido tão solícito com sua nova vizinha.
— Pode me chamar de Seonghwa… acho que podemos dispensar formalidades.
— Claro. Seonghwa. — testou o som do nome dele nos lábios, na voz… e gostou de como soou. — Pode me chamar de então.
— Esse nome combina com você. Não me pergunte o porquê…
Deu de ombros e se levantou do sofá.
— Obrigada mais uma vez, Seonghwa. — Ela se levantou também, para acompanhá-lo até a porta.
Em silêncio eles caminharam, com Seonghwa um pouco a frente e ela mais para trás. Abriu a porta e então os dois se encararam antes dele sair.
— Se precisar de açúcar só bater no apartamento da frente.
apoiou o ombro no batente da porta, cruzando os braços, tentando parecer mais tranquila do que realmente estava.
— E se eu precisar de ajuda com outra caixa imaginária? — provocou, antes que pudesse se arrepender.
Seonghwa riu, aquela risada baixa que parecia sempre começar no peito.
— Aí você já está inventando desculpas. — respondeu, se virando de costas. — Mas eu apareço mesmo assim.
A porta do apartamento em frente se fechou segundos depois, deixando o corredor em silêncio outra vez.
encostou a própria porta devagar, trancando-a, e ficou alguns instantes parada, respirando fundo. O apartamento agora estava organizado, as caixas no lugar… mas algo definitivamente fora do eixo.
Passou a mão pelo rosto, sentindo o calor ainda presente nas bochechas.
— Ótimo. — murmurou para si mesma. — Mal me mudei e já tenho um vizinho que parece ter saído de um pecado capital.
Caminhou até o sofá e se deixou cair novamente, encarando o teto branco, agora iluminado demais para alguém que precisava desesperadamente de um banho e de algumas horas de sono.
Mas, por mais que tentasse relaxar, sua mente insistia em voltar para o corredor.
Para o sorriso torto.
Para a voz rouca.
Para o nome. Seonghwa.
Do outro lado da parede, quase como se sentisse o peso daquele pensamento, Seonghwa encostou as costas na própria porta, fechou os olhos por um segundo mais longo do que deveria… e sorriu.
O primeiro dia dela naquele prédio tinha terminado.
E, para ambos, era apenas o começo.
— Chapman, muito prazer! — Deram as mãos e reparou que ele não parava de sorrir um minuto sequer.
Ela se perguntou até que ponto aquilo era espontâneo, da personalidade dele mesmo, e onde aquilo começava a ser apenas a imagem de idol sendo zelada e imposta por uma empresa, fria e rígida por trás da carreira daquele homem.
Havia estado na indústria Coreana e internacional anos o suficiente para saber que as empresas eram implacáveis e sugam a alma de artistas como Song Mingi. Ele era um rapper bem conhecido e requisitado para milhares de featurings, era parte da realeza do hip-hop dentro do k-pop. Mas sabia que o preço que ele pagava para fazer parte disso tudo, talvez fosse alto demais.
Já fazia alguns anos desde o acidente, provavelmente dois ou três, ela nunca contou direito. Mas ela sabia muito bem que voltar ali para aquele mundo, mesmo que fosse só nos bastidores, também lhe custaria caro.
O acidente havia feito abandonar o mundo da dança para sempre, ela não confiava em si mesma mais e muito menos no próprio corpo. E a sua falta na indústria do k-pop e pop em geral era sentida até hoje.
Ela era conhecida por suas coreografias ousadas, cheias de identidade, linhas fortes e uma presença de palco que não precisava de exageros para ser lembrada. Chapman não seguia tendências — ela criava.
E isso era apreciado por inúmeras gravadoras, especialmente as de k-pop. E lá estava ela de volta como apoio do coreógrafo principal, sem dançar na frente de milhares de pessoas, é óbvio. Na verdade nem na frente de Mingi ela queria dançar.
Ficaria monitorando pelo monitor mesmo e dizendo ao coreógrafo principal o que deveria ser corrigido, melhorado, adaptado e etc.
Assim era melhor.
— Eu nem acredito que vou trabalhar com você para o meu comeback. Isso é surreal!
sorriu sem mostrar os dentes, e sentiu as bochechas enrubescer. Realmente era surreal que ela tivesse voltado a trabalhar com dança…
— O prazer é todo meu Mingi. Espero que possamos fazer um bom trabalho juntos.
— O seu trabalho é um dos mais bem falados da Coreia, . Eu de verdade, nem acredito que você topou voltar para o mundo das coreografias com um trabalho meu… assisti a todos os seus videos na internet, me preparando para esse encontro.
O sorriso bonito dele se alargou pelo rosto e percebeu que era verdade o que diziam: ele seduzia todo mundo de forma praticamente automática.
Ela quase sorriu. Quase.
— Imagino que só coisas boas tenham sobrevivido à edição da internet. — respondeu, com um meio sorriso irônico.
Ele riu, dessa vez de forma ainda mais aberta e sedutora.
— Algumas lendas aumentam com o tempo. — apoiou os cotovelos na mesa. — Mas as boas… ficam.
O comentário a pegou desprevenida. Por um instante, ela sentiu aquele velho aperto no peito, a lembrança do palco, das luzes, do corpo respondendo sem medo. A memória veio rápida demais — e foi embora do mesmo jeito.
— Eu não estou aqui para voltar aos palcos. — disse, firme, antes que ele criasse expectativas. — Estou aqui porque sei construir coisas atrás deles.
Mingi assentiu devagar, como se tivesse esperado exatamente por aquilo.
— É por isso que eu quis te conhecer pessoalmente. — o sorriso dele suavizou. — Eu não preciso que você dance pra mim, . Preciso que você me ajude a contar uma história que ainda não sei como contar sozinho.
Ela sustentou o olhar dele. Não havia pena ali. Nem curiosidade invasiva. Apenas respeito.
E isso, mais do que qualquer convite formal, a desarmou.
— Você sabe que trabalhar comigo vai levantar perguntas. — ela alertou. — Comparações. Expectativas. Gente esperando que eu volte a ser quem eu era.
— E você não precisa ser. — Mingi respondeu, sem hesitar. — Só precisa ser quem você é agora.
O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Foi denso. Cheio de possibilidades.
respirou fundo, sentindo aquele mundo antigo bater à porta outra vez — não com violência, mas com insistência.
Talvez voltar não significasse repetir o passado. Talvez significasse reescrevê-lo.
Ela estendeu a mão sobre a mesa.
— Então vamos deixar isso claro desde o começo, Song Mingi. — disse, com os olhos firmes. — Se eu entrar nisso, vai ser do meu jeito.
O sorriso dele se abriu, genuíno dessa vez.
— É exatamente por isso que eu quero você.
E, naquele instante, percebeu que aquele encontro não era sobre dança, nem sobre música.
Era sobre cicatrizes que ainda doíam… e histórias que mereciam um novo ritmo.
👾👾👾
— Bom, então o álbum vai ser lançado daqui três meses, certo? — tomou um gole do café.
— Isso mesmo, daqui três meses praticamente. — Mingi confirmou com o manager ao lado, assentindo.
— Precisamos de coreografia para as sete músicas do álbum e que você assista aos vídeos de show, performances e etc das outras músicas que iremos incluir na turnê. Isso é ok para você? O tempo é suficiente?
O manager de Mingi levou o croissant até a boca, mordendo um pedaço generoso.
— Tempo suficiente. — Respondeu com firmeza, encarando os dois homens.
estava mais do que acostumada com os prazos malucos da indústria, então nada novo sob o sol para ela, trabalhar sob pressão? Tudo ok, vamos nessa!
— Sabia! — Mingi sorriu outra vez, enquanto olhava diretamente para ela. — Você é das minhas. Nada como trabalhar sob pressão.
Os três gargalharam e levou á xícara aos lábios outra vez.
— Então hoje eu vou poder passar o dia aqui na empresa, ouvindo o álbum?
— Isso! — Respondeu o manager de Mingi. — Hoje você vai ter o dia todo para sentar com o Mingi no estúdio e ouvir o álbum todo. Privilegiada, poucas pessoas ouviram esse álbum.
— E modéstia parte? Tá incrível.
O sorriso voltou no canto dos lábios dele.
Se pudesse ser honesta diria que, não, ela nunca havia ouvido nenhuma música do Mingi, mesmo que ele fosse uma lenda do hip-hop coreano. A praia dela eram os grupos, especialmente os girl groups como Twice, Loona, Mamamoo e etc.
Havia trabalhado com poucos homens durante a carreira, e a maioria grupos, como Shinee, BTS, EXO… com solistas nunca. Especialmente os solistas do gênero de Mingi. Mais uma desafio.
— Eu não dúvido nada disso. — E ela havia sido sincera na sentença. — Vamos ver quais coreografias podemos trabalhar. Você é mais intenso ou prefere as coreografias mais calmas?
— Intenso. Bem intenso. — Mingi respondeu sem desviar os olhos dos dela.
O silêncio que se seguiu não foi constrangedor — foi carregado.
sustentou o olhar dele por um segundo a mais do que o necessário, como quem mede não só a resposta, mas o que vinha junto com ela. Intenso podia significar muita coisa na indústria. Excesso. Ego. Falta de limites. Ou… verdade.
Ela apoiou a xícara no pires com calma.
— Intenso como? — perguntou, profissional. — Intenso de presença? De energia física? Ou intenso emocionalmente?
O manager pigarreou, sentindo que aquela parte da conversa já não era exatamente com ele.
Mingi inclinou levemente o corpo para frente, apoiando os antebraços na mesa.
— Intenso de verdade. — disse, sem sorrir dessa vez. — Do tipo que cansa, que exige controle. Não gosto de movimentos vazios. Se for pra dançar, tem que significar alguma coisa.
Aquilo… chamou a atenção dela.
assentiu devagar, sentindo uma engrenagem antiga girar dentro do peito.
— Então esquece contagem fácil e refrão bonito. — respondeu. — Se for intenso, vai ter pausa desconfortável, vai ter quebra de eixo, vai ter movimento que parece errado antes de fazer sentido.
Um canto do lábio dele se ergueu.
— É disso que eu tô falando.
O manager olhou de um para o outro, terminando o café.
— Vou deixar vocês no estúdio principal. — disse, já se levantando. — Qualquer coisa, estarei por perto.
Assim que ficaram sozinhos, o ambiente pareceu mudar de temperatura.
Mingi levantou primeiro, fazendo um gesto para que ela o acompanhasse pelo corredor. Enquanto caminhavam, reparou em algo sutil: ele diminuiu o passo para andar ao lado dela, não à frente. Pequeno detalhe. Grande significado.
Dentro do estúdio, as luzes eram baixas, o sofá largo, os equipamentos impecáveis. Mingi conectou o celular ao sistema de som e se virou para ela.
— Quer ouvir tudo de uma vez ou faixa por faixa?
largou a bolsa no sofá, respirou fundo.
— Faixa por faixa. — respondeu. — Quero entender quem você é em cada música.
Ele a observou por um instante. Não como idol. Não como artista sendo avaliado.
Como alguém que, pela primeira vez em muito tempo, sentia que estava sendo realmente visto.
— Então senta. — disse, apertando o play. — Essa é a primeira.
Quando os primeiros beats preencheram o estúdio, fechou os olhos por reflexo. O corpo ainda não se movia — mas a mente já trabalhava, desenhando linhas invisíveis no ar.
Talvez aquele projeto fosse só trabalho.
Talvez fosse só mais um álbum.
Ou talvez… fosse o começo de algo que nenhum dos dois estava pronto pra nomear ainda.
Continua...
Encontrou algum erro de script na história? Me mande um e-mail ou entre em contato com o CAA.
Nota da autora: Cheguei com o Mingi para vocês! Gostaram desse casal?
Nota da scripter: MINGIIIIIIIIII, confesso que to amando todas as fics com ele hahahahha #MaisMingi