Quando você me viu



Última atualização em: 23/01/2026
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Mirrors do Justin Timberlake? tocava nos grandes fones de ouvido de , enquanto ele deixava o corpo fluir no ritmo da música. Ali, na sala de práticas sozinho sentindo o ritmo entrar por suas veias era exatamente onde ele gostaria de estar.
Ali nada o tirava dos eixos, nem as piores lembranças poderiam derrubá-lo quando ele dançava. A dança era parte de sua alma de quem ele era desde os onze anos de idade, quando tudo começou a desmoronar. Ali naquela sala, sentindo o ritmo, sentindo o corpo mover enquanto a adrenalina preenche todo seu ser era onde ele podia ser quem realmente era. A dança era tudo que tinha.
As batidas ecoavam por seus ouvidos enquanto ele se movia ao ritmo da música, se deixando levar por ele. O corpo seguia, fluindo, relaxando, entrando numa espiral de paixão e comprometimento, já que ele queria viver daquilo o resto da vida. Enquanto sentia o corpo se mover seguindo o ritmo, os olhos fechados, o coração pulsando…

Click…click…click…

Os olhos de piscaram três vezes enquanto ele olhava para a foto tirada daquele momento que parecia de alguma forma sagrado e profano ao mesmo tempo.
Sagrado porque o momento parecia ser exatamente assim para o garoto fotografado, concentrado. A foto mostrava um garoto sozinho no centro de uma sala escura, iluminado apenas por um foco suave que recortava seu corpo contra o fundo preto. Ele usava uma regata clara que deixava à mostra seus braços definidos, cada músculo tensionado como se ainda vibrasse com o ritmo da dança. A calça larga, também clara, caía pesada sobre os tênis volumosos, dando a ele uma silhueta solta, fluida, feita para se mover.
O boné abaixado escondia parte do rosto, criando um ar de mistério — como se ele estivesse completamente entregue ao próprio mundo, inalcançável. A cabeça inclinada para baixo e a mão fechada ao lado do corpo davam a sensação de que ele estava no exato segundo entre um movimento e o próximo, quase imóvel… mas não parado.
Havia algo bruto e íntimo naquela imagem. Algo que parecia capturar não só o dançarino, mas o momento em que ele esquecia que existia alguém além dele e da música.

Profano porque havia algo quase indecente em testemunhar aquilo.

A foto capturava um momento que não era para ser visto — a entrega total, o corpo exposto não pela pele, mas pela vulnerabilidade. O jeito como ele inclinava a cabeça para baixo, o modo como os músculos do braço se estendiam sob a luz, a firmeza da postura que sugeria força e fragilidade ao mesmo tempo… tudo isso dava a sensação de estar violando um espaço privado.
O dançarino parecia despido de qualquer máscara, revelado não por roupas faltando, mas por emoção demais.
E havia algo de proibido nisso.
Algo que fazia sentir como se tivesse cruzado um limite invisível: o limite entre observar arte e observar alguém sem que esse alguém soubesse.
Era profano porque a imagem deixava claro que aquele instante era dele — só dele. E, mesmo assim, o havia roubado para si com um simples clique.
Nada havia preparado para aquilo. Para aquela sensação… o nó na garganta, o coração batendo forte no peito, descompassado como nunca antes. A boca seca como se ele estivesse vagando num deserto e de repente tivesse encontrado um oásis.
Voltou os olhos para o garoto dançando outra vez, o corpo se movendo num ritmo que não sabia exatamente qual, mas que mesmo assim sentia no próprio corpo, sem nem sequer saber que música estava tocando. A forma como o moreno dançava era totalmente hipnotizante, como se ele ele dominasse todo o espaço com os movimentos, com o corpo.
Aquilo prendeu os olhos de por mais tempo do que deveria.

Click…click…click…

Ele fotografou mais, as costas tensionadas, as pernas flexionadas, o boné tampando o rosto impedindo que enxergasse totalmente seus olhos. Que cor eles teriam?
voltou a piscar os olhos por três vezes seguidas, e levou a lingua aos lábios finalmente, voltando a olhar as fotos na câmera. Precisava sair de lá o mais rápido o possível, não podia ser visto pelo dançarino misterioso.
Ainda relutante, como se seus pés estivessem fincados no corredor das salas de prática da faculdade, ele deu dois passos para trás, mas antes tirou uma última foto, que acabou saindo tremida e sem qualidade.
Foi embora.

⭐⭐⭐


— Eu deveria ter perguntado a ele antes de tirar essas fotos, droga!

olhava da câmera para o melhor amigo, e do melhor amigo para a câmera. As fotos haviam ficado sensacionais, isso era um fato. era um fotógrafo incrível. E mais do que ninguém sabia disso, ele ainda servia de modelo para o portfólio do amigo.

— Isso é verdade. Você não pode sair por aí tirando foto das pessoas sem que elas saibam, .

Os dois se encararam em silêncio. tomou a câmera das mãos do melhor amigo e a abraçou contra o peito, como se estivesse protegendo algo frágil demais para o mundo tocar — ou como se tentasse impedir que aquela imagem escapasse dele de alguma forma.
deixou um sorriso involuntário escapar com a atitude infantil e quase maternal do amigo com relação à câmera.

— O que será que ele estava pensando? — voltou a olhar para a primeira foto que havia tirado do dançarino misterioso.

deu de ombros, e fez uma espécie de beicinho.

— Isso importa? — cruzou os braços.
— Claro que importa! Fotografar é uma arte, eu sempre quero dizer alguma coisa com as minhas fotografias, .
— E o que você quer dizer com essa foto dele?
— Que ele é visto.

e ele se encararam profundamente e ficaram em silêncio.

— Você está pensando em procurá-lo?
— Como vou achá-lo no meio desse tanto de aluno, ?

soltou um muxoxo, encarando a foto mais uma vez. O coração ainda batia forte no peito dele.

— Talvez o destino cruze o caminho de vocês outra vez. piscou os olhos. Três vezes.
— O destino não vai muito com a minha cara.

soltou um sorrisinho ladino.

— Não provoque o destino .

estreitou os olhos mirando o dançarino misterioso mais uma vez.

— Quem é você?




encarava o próprio reflexo no espelho. O suor escorria por seu pescoço e costas, ele estava ofegante, o peito subia e descia descompassado. Havia sido intenso o ensaio que ele havia feito sozinho na sala de práticas, e ele estava satisfeito. Pelo menos até o momento em que revisse a gravação, nesse momento ele sempre encontrava mil defeitos que na verdade nem existiam.
era o aluno mais competitivo do curso de dança da faculdade de Seul, consequentemente ele era um poço de perfeccionismo. O que era bom, e ruim na mesma medida.
se aproximou do amigo, colocando uma das mãos sobre seu ombro, também ofegante.

— Uau, foi intenso hoje! Você mandou muito bem, cara! Como sempre.

balançou a cabeça para o amigo e então começou a assistir a gravação da aula no celular, com ao lado.

— Você também mandou bem tampinha, olha só esse movimento e o seu controle corporal. Insano!

sorriu satisfeito com o elogio do mais novo. Mesmo sendo de períodos diferentes, os dois ainda se encontravam em algumas aulas, e assim a amizade surgiu. meio fechado, observador demais, demorou um pouco para confiar em .

— Acho que quanto mais perto da nossa participação no festival universitário vai ficando, mais nervoso eu fico. Não quero deixar isso transparecer na minha dança… alguma dica? Como você consegue?

respirou fundo antes de responder, apoiando as mãos na cintura enquanto também encarava o próprio reflexo no espelho.

— Eu não consigo — disse, sincero. — Só aprendi a não lutar contra isso.

desviou o olhar da tela do celular, finalmente encarando o amigo.

— Como assim?
— O nervosismo. A pressão. O medo de errar. — deu de ombros. — Se você tenta esconder, ele aparece no corpo. No ombro duro, na respiração curta. Mas se você aceita… ele vira energia.

franziu o cenho, pensativo.

— Você dança com o nervosismo, não apesar dele — completou , com um meio sorriso. — Deixa ele te empurrar, não te travar.

voltou os olhos para a gravação. Pela primeira vez, não procurando erros, mas sensações.

— Eu sempre tive medo de não ser suficiente — admitiu, quase num sussurro. — De chegar até aqui e ainda assim falhar.

apertou levemente o ombro dele.

— Você já é suficiente. Só esquece disso quando começa a se cobrar demais.

O silêncio que se seguiu não era desconfortável. Era o tipo de silêncio que acolhe.

— Ei — acrescentou, quebrando-o com suavidade. — No festival, dança como se estivesse sozinho naquela sala. Sem plateia. Sem julgamento.

assentiu devagar.

— Vou tentar.

E, pela primeira vez naquele dia, ele acreditou que talvez fosse possível.

⭐⭐⭐


chegou em casa e largou a mochila sobre a pequena mesa de centro e depois se livrou do moletom acinzentado, abrindo o zíper. Jogou o mesmo sobre o sofá e então caminhou pelo corredor escuro, sem se dar ao trabalho de acender as luzes. Acendeu apenas a do banheiro, retirou o restante das roupas suadas das aulas e dos ensaios e então ligou o chuveiro, ajustando a temperatura.
Deixou que a água quente descesse pelos músculos de suas costas, começando a relaxar. O vapor logo tomou conta do pequeno banheiro, embaçando o espelho e abafando qualquer som que viesse de fora. Era ali, naquele silêncio interrompido apenas pelo barulho constante da água, que seus pensamentos sempre encontravam espaço para se espalhar.
Fechou os olhos, apoiando uma das mãos na parede fria, sentindo o contraste com o calor do chuveiro. O corpo pedia descanso, mas a mente insistia em voltar aos mesmos pontos: a coreografia, os passos que poderiam ter sido melhores, o festival se aproximando rápido demais.
Inspirou fundo, deixando a água escorrer pelo rosto, como se pudesse levar embora a tensão acumulada no dia. Ainda assim, uma imagem insistente surgia sem ser convidada — a sensação de estar sendo observado, mesmo quando dançava sozinho. Um arrepio percorreu-lhe a espinha, não de medo, mas de algo que ele não soube nomear.
Talvez fosse só cansaço, pensou. Ou talvez fosse o incômodo estranho de saber que, em algum lugar, havia um olhar que o tinha visto de verdade.
Ele afastou a ideia, passando a mão pelos cabelos molhados, decidido a não pensar mais nisso. Amanhã seria outro dia. Outro ensaio. Outra chance de acertar.
Mas, mesmo com a água quente caindo sobre si, não conseguiu afastar completamente a sensação de que algo havia mudado.

⭐⭐⭐


— Vai queimar as panquecas ! Presta atenção! — puxou levemente os cabelos da melhor amiga, para chamar sua atenção.
— Ai, seu veadinho! — levou uma das mãos até a cabeça, no ponto onde havia ficado dolorido pelo puxão.
— Sou mesmo!

Os dois gargalharam alto, jogando as cabeças para trás e se virou para o fogão, deixando de mexer no celular antes que as panquecas realmente se queimassem.
Os dois moravam juntos desde o primeiro período de faculdade, a afinidade foi quase instantânea e desde então um não existe sem o outro. Os dois costumavam dizer que um era a versão feminina/masculina um do outro e por isso davam tão certo. Eles eram a “alma gêmea da amizade” um do outro.

— Já conseguiu as fotografias perfeitas para o festival ? Você disse que faltava só uma… eu ainda estou empacada em três. Nada tem me chamado a atenção desde ontem.

engoliu seco ao pegar a jarra de água de dentro da geladeira.

— Preciso conversar com você sobre isso.
— Porque, o que houve?

Os dois trocaram um olhar e levou o copo cheio d’água até os lábios, tomando a água toda numa grande golada.

— Tirei uma foto perfeita de um aluno do curso de dança que nunca vi na minha vida, mas não falei com ele sobre a fotografia. Uso ela no festival ou não?
— Me mostra essa foto assim que a gente jantar, te digo se usa ou não.

piscou travessa para o melhor amigo, que sorriu para ela.

⭐⭐⭐


analisou a fotografia em silêncio por longos segundos.

— Ai ! Anda logo! O que tanto você analisa?

ergueu os olhos da câmera para ele.

— Vai me dizer que você já não babou horrores nessas fotos? Olha só esse gatinho, !
— É nisso que você tá reparando sua safada? E não no quanto essa foto exala… — parou no meio da frase, procurando a palavra certa. — Verdade. Entrega. Alma.

inclinou a cabeça, um sorriso lento surgindo nos lábios.

— Ah, então é pior do que eu pensei.
— Pior como?
— Você não só achou ele bonito. Você sentiu algo. — Ela apontou para a tela da câmera. — Essa foto não é só técnica, . Ela é íntima.

desviou o olhar, passando a mão pelos cabelos.

— Eu sei. É exatamente por isso que eu tô em dúvida.
— Porque você viu algo que não era pra ver? — perguntou, mais séria agora.
— Porque eu capturei algo que ele não me deu permissão pra tocar.

suspirou, apoiando os cotovelos na mesa.

— Olha… como fotógrafa em formação, eu diria que essa imagem merece ser vista. Como sua melhor amiga, eu digo que você precisa falar com ele antes. — Ela deu de ombros. — Se você usar essa foto sem consentimento, isso vai te corroer por dentro.

mordeu o lábio inferior.

— E se ele odiar?
— Então você apaga. — respondeu, simples. — Mas se ele entender… — o sorriso travesso voltou — …talvez essa foto seja só o começo de alguma coisa.

voltou a olhar para a imagem na tela.
O dançarino parecia distante, perdido em si mesmo.

— Eu nem sei o nome dele — murmurou.

sorriu.

— Ainda.



Continua...



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Nota da autora: Espero que o primeiro capítulo tenha prendido sua atenção, um beijo!








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